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Após conhecer a medina e a praça Djemaa el Fna durante o dia, demos uma volta seguindo os belos muros de Marrakech até pararmos no portão mais famoso da muralha, o Bab Agnaou.

A caminho do Kasbah, a visão dos muros de Marrakech

Bab Agnaou foi construído pelo sultão Abd al-Mumin em 1150 e é um dos principais acessos ao Kasbah, construído por Yakub al-Mansur. Seu nome significa Portão das Pessoas Negra, uma vez que essa era a porta de entrada usada pelos plebeus, enquanto a aristocracia entrava no Kasbah por outro portão. Ele ainda mantém a arquitetura original. A riqueza e elegância da estrutura e decoração fazem do Bab Agnaou um dos melhores exemplos da arquetetura militar Maghreb.

Bab Agnaou, o imponente portão de entrada para o Kasbah

O Bab Agnaou não é tao trabalhado quanto os portões de Meknès, porém sua arquitetura transmite força e grandeza, com formas quadradas e circulares, formando a característica ferradura de cavalo, vista em quase todas as construções marroquinas.

No alto do imponente portão está uma inscrição dizendo “Entre abençoado pessoa serena“. Em cima, há ninhos de cegonhas que usam sem muita cerimônia a estrutura robusta do Bab Agnaou.

Bab Agnaou serve de base para os enormes ninhos das cegonhas

Passando pelo Bab Agnaou, entra-se no Kasbah e logo se vê do lado direito a Mesquita do Kasbah, conhecida também como el-Mansouria. A mesquita foi construída em 1190 e posteriormente restaurada na dinastia saadiana. Os azulejos verdes que decoram seu belo minarete são da construção original.

Enquanto passava pela mesquita do Kasbah, pude ouvir o chamado para oração e essa foi a vez em que deu para ouvir mais de perto o chamado, mesmo com toda a agitação dentro dos muros do Kasbah. Aproveitei para gravar o melódico chamado.

Mesquita do Kasbah, localizada entre o Bab Agnaou e as Tumbas Saadianas

Continuando o passeio, chegamos às Tumbas Saadianas, localizadas próximo à mesquita. As tumbas, que datam do século XVI, são o mausoléu real onde estão enterrados os membros da dinastia saadiana, que fizeram de Marraquech, a capital do Marrocos durante o período em que governaram, de 1554 a 1669.

A magnífica construção é adornada com mármore italiano e tetos de cedro. Nosso guia brincou dizendo que aquele mármore era feito de açúcar, pois foi trazido em troca da cana de açúcar existente no país.

Interior do primeiro mausoléu das Tumbas Saadianas

Existem dois principais mausoléus formados por várias salas e um jardim externo que os separa. No jardim, ependendo do número de turista, forma-se uma fila para alcançar a porta do segundo mausoléu. O interior das tumbas é maravilhosamente trabalho, com belos detalhes, mostrando todo o cuidado que o marroquino tem em suas construções. As palavras são poucas para descrever a elegância e delicadeza das salas, onde reina o estilo mouro-hispano. É até difícil escolher de onde tirar foto.

Detalhe do interior de uma das salas que formam as Tumbas Saadianas

Arquitetura muito bem trabalhada no interior das tumbas

Sem dúvida, as Tumbas Saadianas é um local que deve ser visitado no Marrocos. Até 1917 elas ficaram esquecidas, porém após serem redescobertas por uma francês e serem restauradas, elas são agora um ponto de grande visitação em Marrakech. As Tumbas Saadianas ficam na Rue de La Kasbah e abrem diariamente das 9:00 as 4:45. O ingresso custa 10 dihans (aproximadamente 1,00 euro).

O primeiro lugar que visitamos no dia seguinte a nossa chegada em Marrakech foi a mesquita Koutoubia, localizada na avenida Mohammed V, próximo à praça Djemaa el Fna, o coração da medina. Eu particularmente estava muito ansiosa para visitá-la, pois havia lido vários relatos sobre sua beleza e imponência únicas. A visita é apenas do lado de fora, já que a entrada é proibida para não muçulmanos.

O minarete da Koutoubia domina a paisagem na avenida Mohammed V

o nome Koutoubia significa escritores. Uma das explicações para a mesquita ter esse nome era porque lá era o local onde se escreviam os livros. Outra explicação é que antigamente havia um mercado de livros nas proximidades.

A mesquita é considerada pelos marroquinos como tendo o minarete mais belo de todo o norte da África. Ela foi construída pelo sultão Yacoub Al Mansour, cujo desejo era construir 7 mesquitas para entrar no céu e ser recebido por 14 virgens. Sua construção teve seu início em 1150, terminando somente 40 anos depois.

O monumento é um típico exemplo da arte moura no país. Sua arquitetura serviu de modelo para outras duas mesquitas, a de Servilla, conhecida como Giralda, e a não terminada Hassan, a mesquita que rendeu boas histórias para os marroquinos em Rabat, mas não o paraíso para o sultão megalomaníaco, que morreu antes de finalizar a sétima mesquita.

 

A mesquita é rodeada por um belo jardim

Seu desenho é de uma beleza simples porém sofisticada, com formas detalhadas e proporcionais, daí sua fama de ser um dos monumentos mais bonitos da região do Maghreb (norte da África). Seu minarete possui 77 metros de altura com paredes de 13 metros de largura. Ele pode ser visto em um raio de até 25 kilômetros. Isso é favorecido também pela tradição marroquina de que nenhuma construção pode ser mais alta do que o minarete das mesquitas, pois seria arrogância construir uma casa ou prédio mais altos do que qualquer edifício, nesse caso as mesquitas, dedicado à Deus.

Outras construções e casas também foram influenciadas pela arquitetura da Koutoubia. A larga faixa vista na parte superior formada por cerâmica, as ameias pontiagudas no parapeito, a decoração diferente em cada lado da torre, os pequenos arcos e vários outros motivos decorativos florais, arabesques ou de caligrafias em relevo, podem ser visto em muitos edifícios espalhados por todo o Marrocos.

Detalhes do alto do minarete, com as faces que diferem entre si

No alto do minarete há três grandes esferas de cobre de tamanhos decrescente, um quesito tradicional nas mesquitas do país. A maior delas, que fica abaixo de todas, possui um diâmetro de dois metros. Normalmente são apenas três, porém, como tudo no Marrocos tem uma história, a Koutoubia não poderia ficar de fora. Diz a lenda local que a quarta esfera existente no alto foi um presente da esposa do sultão Yacoub el Mansour, como penitência por quebrar o jejum de três horas durante o Ramadã.

Visão da lateral e fundos da mesquita

A Koutoubia é rodeada por um belo jardim, um lugar ideal para uma parada de descanso onde podemos admirar com uma certa tranquilidade a beleza da arquitetura da mesquita. Digo com certa tranquilidade pois com toda certeza aparecerão vendedores de artesanatos e outras coisas procurando por turistas. No nosso caso, um insistente vendedor de roupas apareceu enquanto fotografávamos a frente da mesquita.

Lateral direita da mesquita vista do jardim

Pela sua beleza, história e símbolo de religiosidade do país, a Koutoubia domina a paisagem no horizonte de Marrakech. Além de ser tida como uma casa de espiritualidade para os marroquinos, a mesquita também é um must to see para turistas de todo o mundo. Não é à toa que alguns livros comparam sua importância turística para Marrakech sendo tão grande como a da Torre Eiffel para Paris.

No último dia em Fès, arrumamos nossa bagagem e saímos cedinho rumo à tão esperada Marrakech. Esse era um dia muito especial no Marrocos, e acredito que em todos os países muçulmanos também, afinal era a festa religiosa conhecida como O Sacrifício de Abraão ou a Festa do Cordeiro, fazendo referência à passagem bílbica onde Deus pede para Abraão sacrificar seu filho em honra a Ele, porém, na hora do sacrifício, um anjo é enviado e entrega a Abraão um cordeiro para ser sacrificado no lugar de seu filho Isaque (Gênesis, 22:1-19).

Desde nosso primeiro dia no Marrocos, em Casablanca, que víamos pessoas carregando cordeiros em carros, camionetes, carrinhos de mão e até mesmo nos próprios ombros. A mesma cena se repetia várias e várias vezes em Rabat, Meknès e Fès. Isso obviamente despertou minha curiosidade e foi então que descobri, que toda aquela movimentação era na verdade os preparativos para a festa religiosa, assim como as compras de Natal para nós.

Nas ruas de Casablanca, o comércio de cordeiros por todos os lados

A medida em que se aproxima a data, o comércio de cordeiros fica ainda mais intenso. A movimentação dentro da medina aumenta ainda mais, com pessoas agitadas comprando todos os preparativos para a grande festa.

No dia em si, as pessoas parecem mais calmas, mais tranquilas, mais centradas na festividade. Logo cedo, elas tomam um café da manhã bem especial e vão para as mesquitas participarem do culto. Os homens se dão quatro beijos para desejar boas festas. As crianças ganham roupas e sapatos novos, doces, presentes e dinheiro. Nesse ponto, a festa religiosa é parecida com o Natal com relação à importância da data e à troca de presentes. No entanto, as similaridades param por ai.

Em Casablanca víamos várias camionetes carregando cordeiros para diversas famílias

Quando as pessoas voltam da celebração na mesquita, elas dão início ao sacrifício do cordeiro e ai entra a parte que, para nós ocidentais, é difícil de compreender. As famílias vão então para a frente de suas casas e lá sacrificam o animal. Depois disso o penduram de cabeça para baixo para que todo o sangue escorra. O significado da festa está justamente no sacrifício do cordeiro, por isso não se pode apenas comprar a carne, deve-se comprar o cordeiro vivo e sacrificá-lo na frente da casa. Isso para reviver o sacrifício de Abraão, patriarca de todos os muçulmanos, que iria ceder seu filho a Deus. Sendo assim, as pessoas fazem esse ritual para atrair as bençãos de Deus para sua família e descendentes, uma vez que eles próprios são descendentes de Abraão. Assim, eles mantém vivo o compromisso de Abraão e sua descendência para com Deus.

Eu, particularmente, apesar de respeitar a fé e crença de cada um e de entender o forte significado religioso, não me senti bem com a questão do sacrifício. Quem me conhece, sabe como sou apegada a bichos e por isso decidi não olhar para nenhuma casa onde estivesse acontecendo o sacrifício. Essa atitude me rendeu muitas horas de viagem sem olhar para a estrada, pois por todos os lados haviam famílias comemorando a data.

Um rapaz leva seu cordeiro em um carrinho de mão em Meknès

Mesmo para eles é difícil encarar o ato de matar o cordeiro, principalmente para as crianças. Esse é o motivo pelo qual elas recebem mimos como presentes e doces, afinal os pequenos se apegam ao cordeiro nos dias em que precedem a comemoração e acabam sofrendo quando ele é morto. Alguns adultos também ficam sentidos. Nosso guia me contou que ele ainda lembra de quando era criança e via o cordeiro sendo morto. Ele também mencionou que, mesmo agora sendo adulto, não tem coragem para sacrificar o cordeiro. Quando isso ocorre,  um vizinho é chamado para executar a tarefa. Isso não deixa de ser um bonito ato de solidariedade, esquecendo de que se trata do ato de matar um bicho.

Outro ato de solidariedade religiosa é o fato de que famílias ricas costumam comprar dois 2 cordeiros, um para elas e outro para doarem a uma família pobre que não tem condições de adquirirem um. Dessa forma ninguém fica sem comemorar o dia religioso.

A mesma cena se repete nas ruelas da medina de Fès

No dia da festa mesmo não se come a carne, só no dia seguinte. Esse também é um dos motivos pelo qual o café da manhã é bem reforçado. No dia festivo, apenas o sangue é derramado lembrando o ato de Abraão, nos demais dias que se come a carne e depois aproveita até mesmo o couro do carneiro.

A Festa do Cordeiro não tem data fixa para ocorrer, assim como nossa Páscoa. Ela corresponde  ao final do ano muçulmano. Nesse caso, o  ano que começava para eles era o 1432, enquanto que para nós era novembro de 2010. O ano 1 islâmico corresponde ao nosso ano 622. Na verdade, eles seguem o calendário lunar, ao contrário de nós que seguimos o calendário solar ou gregoriano. No Islam, o ano começa com a fuga de Maomé de Meca para Medina (Hegira). O calendário possui 12 meses como o nosso, porém são mais curtos, com 30 ou 29 dias, o que dá 355 ou 354 dias, 11 dias a menos que o calendário gregoriano.

De um jeito....

....Ou de outro, o cordeiro vai para casa

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Vivenciar essa festa religiosa foi bom pelo fato de poder conhecer mais da cultura e fé do marroquino, porém para ser sincera foi um momento bem difícil para mim, por amar aos bichos (embora eu coma carne) e também pelo forte sentido religioso, envolvendo filhos e sacrifício. Mas de tudo, ou quase tudo, tiramos uma boa experiência e lição de vida.

À tarde, as casas, ruas e estradas ficaram silenciosas e aparentemente vazias. No final do dia, somente as viúvas dos carneiros permaneciam nos campos.

Ao final do dia, somente as viúvas dos cordeiros restam nos pastos na beira da estrada

 

 

 

Em Fès el-Bali (cidade antiga) é onde estão a maioria dos pontos turísticos de Fès. Só para se ter uma idéia, são 10.572 construções de interesse histórico, incluindo 185 mesquitas, numerosas medersas (universidades corânicas), vários palácios, o interessante curtume, além de restaurantes típicos e souks para comércio de tapetes, couro, especiarias, metais, etc.

Por tudo isso, Fès el-Bali entrou em 1981 na lista de patrimônios protegidos pela UNESCO, que atualmente promove a restauração de várias contruções e também da muralha ao redor da medina. Bom, simplesmente estar na medina já vale a pena, pelo fato de ser o lugar onde se vê o cotidiano puro do marroquino, sem a interferência da colonização européia, mas visitar os pontos turísticos existentes ali dentro é melhor ainda. Com certeza, estando em Fès, a medina medieval é o lugar onde se deseja passar a maior parte do tempo.

Nosso dia de exploração da medina começou passando pelo portão Bab Ftouh, um dos principais portões de acesso. Seu nome é devido ao príncipe Zenet, conhecido como Ftouh, que restaurou o portão até então chamado Bab Al-Qibla, dando seu nome a ele. Mesmo sendo famoso, ele não é um dos mais bonitos, na minha opinião. Seu desenho é robusto, quadrado e com linhas retas. No entanto, apesar da sua aparente simplicidade, não resta dúvida de que o portão seja realmente imponente devido ao tamanho e força de seu desenho.

O Bab Ftouh é um dos 4 principais portões de acesso para Fès el-Bali, juntamente com os portões Bab Boujeloud, Bab er R’cif e Bab Guissa. Esses portões servem como referência para caso alguém se perca no labirinto formado pelas ruelas da medina. Por trás desses portões há muito mais do que podemos imaginar ou esperar. Há um lugar onde a modernidade, máquinas, tecnologia e outros aspectos da vida moderna ainda não dominaram o cenário.

Linhas simples porém fortes do Bab Ftouh, um dos principais portões de acesso para a medina

Porém, não foi pelo Bab Ftouh que entramos na medina na nossa visita durante o dia, e sim pelo Bab er R’cif, um portão mais centralizado e melhor localizado. O Bab er R’cif possui um desenho mais trabalhado, sendo formado por um arco maior central ladeado por dois arcos menores. Em frente, há uma praça com várias pessoas transitando, assim como muitos ônibus de turismo, já anunciando a grande movimentação dentro da medina.

No local há vários guias oferencendo seus serviços. É mais seguro escolher os guias oficiais para acompanhar na visita à medina. No entanto, se optar por escolher um guia, é melhor deixar bem claro para ele se deseja ou não fazer compras, caso contrário ele levará somente para conhecer as lojas para turistas.

Bab er R’cif visto do terraço de uma loja de tapetes

O primeiro lugar que visitamos, após muito andarmos pelas ruas cheios de curiosidade, foi a Place Seffarine, um lugar aberto, em contraste com as ruelas onde pessoas e animais se espremem para conseguirem se locomover. Essa é a região do Souk das lojas de objetos de cobre e prata. Esclarecendo melhor, todo o comécio na medina está divido em souks de acordo com o tipo de artesanato ou produto vendido, então existem os souks para compras de tapetes, couro, henna, especiarias, etc.

Nesta praça se concentram os responsáveis por uma das profissões mais antiga de Fès, os artesãos que fabricam vasos, bandejas, candelabros, lustres, caldeirões e outros utensílios de ferro, cobre e prata.  São objetos que enchem a vista, sendo muito procurados para casamentos e festivais pelos nativos, além dos turistas ávidos por compras, obviamente.

Objetos de cobre, prata e ferro fabricados e vendidos na Place Seffarine

A Place Seffarine é a principal porta de entrada para a Biblioteca Kairaouine, que abriga mais de 32.000 manuscritos, incluindo textos sobre islamismo, matemática e ciência.

Escadaria da Biblioteca Kairaouine, que faz parte da universidade mais antiga do mundo árabe

A biblioteca faz parte do complexo formado pela universidade mesquita construída em 857 e tida como a mais antiga do mundo árabe. A fundação da universidade marca o início da Idade de Ouro de Fès.

A partir dessa época, houve um aumento das construções de mesquitas e foundouks na cidade, além de residências de luxo (algumas transformadas em belas lojas hoje em dia) e medersas (universidades).

Com isso, Fès acabou por se tornar a capital de um vasto império com comerciantes, artistas, estudiosos e estudantes de todo o mundo árabe reunindo-se em seus portões. Sua influência cultural e espiritual foi tamanha que a cidade chegou a ser referida como a “Atenas de África”.

Durante muitos séculos, a universidade Kairaouine foi a única fonte de estudo do Marrocos, daí a fama intelectual que permeia até hoje a cidade de Fès, motivo de orgulho para seus habitantes.

Não muçulmanos podem entrar e tirar foto na bela escadaria azul, mas não podem passar desse ponto.

A mesquita Kairaouine foi fundada pela filha do sultão Fatima el Fihria. Seu nome se origina da cidade de Kairouan, na Tunísia, cujos imigrantes costumavam viver nas proximidades. Ela faz parte de um dos importantes locais para ensino do islamismo e é considerada pelos marroquinos como o santuário dos santuários para oração e meditação.

 

Minarete da mesquita Kairaouine visto do terraço de uma loja de tapetes

É a única construção almorávida ainda em uso. Mais tarde, as dinastias almoáda, merenida, saadiana e alaoíta deixaram suas características no prédio. Sua forma atual foi conseguida no ano de 1135 pelo sultão almorávida Ali ibn-Yusuf. No início o local era pequeno, porém, posteriormente recebeu várias restaurações. Uma delas feita por artistas andaluzes que realçaram a arte moura-hispano, com portas e arcos feitos com cedro. A mesquita agora se extende por uma grande área dentro da medina e possui 14 entradas, com capacidade para até 20.000 pessoas.

Como é de esperar, é proibida a entrada de não mulçumanos, mas, se as portas estiverem abertas, podemos apreciar uma parte de seu interior do lado de fora das portas de cedro. Dessa forma dá para ter uma idéia do tamanho que a mesquita ocupa. Até a construção da mesquita Hassan II em Casablanca, a Kairaouine era a maior mesquita do Marrocos. O desenho interior da mesquita é similar à existente em Córdoba, com um pátio aberto e uma grande fonte no centro.

Interior da mesquita Kairaouine

Porta e arco trabalhados no interior da mesquita

 

 

Saindo da Place Seffarine, fomos caminhando até chegar no Fondouk Tetouani. Fondouks eram centros mercantis utilizados como casas de comércio, hotéis e armazéns. No geral, eles estão localizados ao longo das principais vias da Medina (Talaa el Kibira, Talaa Sghira, Ras Cherratine e Nejjarine) e próximos aos portões principais.

O Fondouk Tetouani foi fundado no século 14 por comerciantes vindos da cidade bérbere Tétouan, localizada no nordeste do Marrocos, daí seu nome. Originalmente o local servia como hotel para os comerciantes em viagem. Hoje em dia, a construção merenida é um lugar para vendas de tapetes. Pode-se entrar no fondouk sem a obrigação de comprar algum tapete, pois há um pátio central próprio para visitação.

Tapetes expostos nas sacadas do Fondouk Tetouani

Detalhe da fechadura da porta de entrada para o Fondouk Tetouani

Saindo do Foundouk Tetouani, vimos outra mesquita conhecida como Sidi Ahmed Tijani. Essa mesquita é dedicada aos peregrinos vindos do oeste africano em direção à Meca, a cidade sagrada para o Islamismo. A mesquita do século 18 contém a tumba de Sufi Shaykh, fundador da ordem Tijani.

A mesquita é facilmente reconhecida pelo belo minarete decorado com azulejos verdes e a porta no canto com desenhos pintados em tons vermelhos. Assim como as demais mesquitas da medina, a entrada é proibida para não muçulmanos.

Entrada para a mesquita Sidi Ahmed Tijani

Minarete decorado com grande quantidade de azulejos verdes

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Seguindo nossa visita à medina, chegamos em um dos lugares mais sagrados para os habitantes de Fès, a Zaouia Moulay Idriss II, localizada no coração da medina. Zaouia é uma mesquita construída ao redor da tumba de um santo do Islamismo, chamado de marabout. Nesse caso, a zaouia abriga o túmulo de Moulay Idriss II, fundador da cidade de Fès. Foi originalmente construída no século 6 em honra ao fundador da cidade e mais tarde restaurada pelos merenidas no século 13.

Barra de madeira indicando o limite para a passagem de não muçulmanos.

Ao lado das mesquitas Kairaouine e Koutoubia (em Marrakech), a zaouia Moulay Idriss II é uma das mais importantes mesquitas construídas. A zaouia possui uma grande barra de madeira entalhada que sinalizava o lugar onde cristãos e judeus não podiam mais passar. Os muçulmanos que passavam desse ponto podiam pedir asilo, caso estivessem fugindo da polícia, pois era proibido fazer qualquer prisão na área considerada sagrada.

Pátio interno da Zaouia Moulay Idriss II visto do lado de fora

Como o esperado, é proibida a entrada de não muçulmanos, mas é possível observar seu interior do lado de fora e os belos trabalhos em zellij (azulejos) que existem no local. Também é possível avistar o túmulo de Moulay Idriss II.

A zaouia é local de constante peregrinação, especialmente por mulheres devotas de Moulay Idriss II, que vão em busca de baraka ou boa sorte e fertilidade. Em uma das paredes da zaouia existe uma abertura própria para inserir cartas com os pedidos ou envelopes de doações.

Detalhe do belíssimo interior da Zaouia onde está o túmulo de Moulay Idriss II, fundador de Fès.

Depois da Zaouia, fomos almoçar, visitar algumas lojas e saímos da medina. No tempo em que ficamos fora, aproveitamos para visitar o Palais Royal ou Dar El-Makhzen (Palácio Real), localizado na Place des Alaouites, em Fès El Djedid (Ville Nouvelle). Este magnifico palácio, construído no século XIII pelos merenidas, possui imponentes portas de bronze e ocupa uma área de nada menos que 80 hectares. O Palácio tem a reputação, notadamente merecida, de estar entre as construções mais elegantes do Marrocos.

Fachada do Palácio Real na Ville Nouvele em Fès

Infelizmente, o palácio não é aberto à visitação, mas a simples visão da sua fachada já compensa. Dá para imaginar como é seu interior.

Enquanto estávamos na frente do palácio, um fotógrafo apareceu para tirar fotos dos turistas. No dia seguinte, ele estava vendendo as fotos na porta do nosso hotel. Isso acaba sendo algo bem comum no Marrocos. No entanto, deve-se tomar cuidado quando for tirar fotos que apareçam outras pessoas, pois eles tem o costume de pedir dinheiro quando percebem que saíram em alguma foto de turista. Além disso, também é considerado ofensivo tirar fotos das mulheres, especialmente daquelas usando a burca.

Detalhe dos mosaicos ao redor da porta de bronze

Perto do Palácio Real, ainda em Fès El Djedid fica o bairro judeu Mellah, fundando pelo sultão no final do século XVI para a comunidade judaica que habitava em Fès. Seu nome deriva da palavra árabe melh, que quer dizer sal.

O bairro difere dos outros locais em Fès pela arquitetura de suas casas. As moradias árabes possuem como característica principal o átrio ou jardim no meio da casa cercado pelos quartos, que são distribuídos ao redor do átrio. Com isso, a fachada das casas é, em geral, bem simples, ao contrário do seu interior. Já as casas judias possuem janelas, sacadas e decorações voltadas para o exterior, parecidas com as nossas mesmo.

Uma das ruas do bairro Mellah, com as casas judias acima das lojas do comércio.

Retornamos para a medina à noite, entrando dessa vez pelo portão de acesso mais famoso e mais bonito, o Bab Boujloud, um monumental portão decorado com zellijs azuis, localizados na face externa do portão, representando a cor de Fès,  e verdes, no lado interno do portão, representando a cor do alcorão. Apesar da aparência supostamente antiga, esse é o portão mais novo da medina, construído em 1913 pelos franceses durante o protetorado.

As construções ao redor do portão também são recentes, há vários restaurantes e cafés no local. Alguns deles com belos terraços para uma melhor visão da medina e suas construções.

Portão Bab Boujeloud com a Medersa Bou Inania ao fundo

Do Bab Boujeloud já se avista a Medersa Bou Inania, construída no século XIII pelo sultão merenida Abu Inane, do qual deriva seu nome. Medersas são escolas teológicas, onde se ensina o Alcorão. A Medersa Bou Inania é a maior e mais conhecida medersa merenida em Fès. Ela funciona como escola e local de oração. A construção é impecável, sua porta é de bronze e os degraus decorados com ônix e mármore, enquanto o minarete é decorado com mosaicos de madeira de cedro.

Próximo à medersa está o relógio de água feito de madeira entalhada em um friso. Reza a lenda que foi construído por um mago. Independente de ter sido ou não, é difícil imaginar como o relógio funciona. Abaixo dele tem um restaurante chamado Café Clock.

Relógio de água feito de madeira inscrustada na parede. Só mesmo o mago que o criou para saber como funciona…

Terminamos o dia andando pelas ruas da medina, vivenciando toda a movimentação da multidão às vésperas do importante feriado religioso chamado Sacrifício de Abraão, com toda agitação no comércio e bancas que vendiam especiarias, perfumes caseiros, especiarias, coentro, menta (expostos no chão) e até mesmo dentaduras, que são experimentadas pelos clientes antes de compra-las (arghhhh!).

Saímos da medina próximo ao portão Bab Chorfa, conhecido como o portão dos nobres e  construído em 1069.

Bab Chorfa, o portão dos nobres, visto à noite

Com certeza ainda há muito mais a ser visto, mas infelizmente tínhamos apenas um dia para visitar a medina. O tempo é curto para apreciar toda a riqueza cultural e arquitetônica de Fès el-Bali.

Após nossa bela visita à medina, retornamos ao nosso hotel para um delicioso jantar de tajine de carneiro e carne de caça com música ao vivo e uma muito esperada apresentação de dança do ventre, partes da cultura marroquina que serão melhores descritas em um próximo post.

Entrar na medina de Fès foi para mim um dos momentos mais esperados da viagem ao Marrocos. Depois de tanto ler sobre o local, em casa antes de viajar e durante o vôo para Madri, não tem como a curiosidade e a imaginação não aumentarem e criarem várias versões sobre como seria estar dentro da mais antiga medina do mundo árabe.

São tantos casos contados pelos turistas e guias e tantos anos de história dentro daqueles muros que ficamos extasiados só de atravessar os portões e sentir de perto o que é a vida dentro dos muros da medina.

Porém, antes de atravessar os portões e vivenciar o cotidiano mais puramente marroquino, nós subimos até o museu Borj Nord para termos uma magnífica vista da medina. O Borj Nord abriga o museu de armamento com uma coleção notável das armas feitas ou usadas no Marrocos.

Exterior do Borj Nord, o museu de armas fabricadas ou usadas no Marrocos

O Borj Nord era inicialmente um forte construído no século XVI, fazendo parte das muralhas de proteção da cidade, que posteriormente foi transformado no museu de armas, seguindo a tradição militar do local. São mais de 5000 peças em exibição divididas em 13 salas, incluindo armas do período pré-histórico até rifles modernos. A coleção é formada principalmente por doações da família real. Além do acervo marroquino há peças de origens européia, indiana e asiática.

Na verdade, esse não é o tipo de museu que gosto de visitar, mas, com certeza, a subida até o Borj Nord compensa pela vista que se tem da medina e dos seus arredores.

Medina de Fès vista do Borj Nord

Olhando dali de cima, a medina parece um local calmo e tranquilo, nem de longe deixando transparecer a agitação e barulho causados pela multidão que habita, transita, estuda, reza e trabalha por trás dos muros.

Estando ali, no alto do Borj Nord, admirando a bela paisagem formada pela medina com as montanhas ao fundo, naquela paz e quietude, a ansiedade para descer e atravessar os muros da cidade antiga aumentava cada vez mais.

Uma visão mais próxima da medina mostrando o amontoado de habitações, comércios e mesquitas

De lá de cima, também é possível avistar as ruínas das Tumbas Merenidas, rodeadas por uma belíssíma paisagem formada pela vegetação e pelas montanhas ao fundo. O local onde se encontram as tumbas, conhecido como Al Qolla, foi escolhido no século XIV para servir de necrópole real.

Lá foram enterrados vários sultões de linhagem real, porém hoje em dia o local encontra-se em ruínas. De fato, a paisagem em volta chama mais atenção dos que as tumbas somente.

Ruínas das Tumbas Merenidas vistas do Borj Nord

Após descer do Borj Nord, ainda passamos pelas muralhas do Kasbah Cherarda, um forte construído em 1670 pelo sultão Moulay Rashid com o objetivo de manter afastados as tribos bérberes do deserto. São no total 15 km de impressionantes muralhas que protegiam o suprimento de grãos dos ataques inimigos.

Os bérberes são na verdade os primeiros povos a habitarem no Marrocos, sendo que os árabes invadiram depois o local. Existe uma grande diferença cultural entre bérberes e árabes, incluindo idioma, crenças e hábitos, o que leva a uma certa rivalidade entre os dois povos até os dias de hoje.

Trecho das muralhas do Kasbah Cherarda. Os furos nas paredes são devido ao processo de restauração conduzido pela UNESCO

A medida em que nos aproximávamos da medina, maior era o número de pessoas na rua. Quando passamos de frente ao portão Bab Ftouh, um dos principais portões de entrada, vimos uma multidão de pessoas se espremendo por detrás dos muros. A mesma cena se repetiu quando passamos próximo ao Bab Boujeloud, outro imponente portão principal.

Isso era em parte justificável pois era véspera de um importante feriado religioso conhecido como O Sacrifício de Abraão. Por causa disso, todos os marroquinos estavam se preparando para a festa religiosa a ser celebrada no dia seguinte por todo o país.  O feriado e a sua comemoração serão em breve descritos em outro post, devido ao caráter forte da data e o tipo de comemoração, principalmente aos olhos de turistas ocidentais como nós.

Multidão de pessoas vista pelo lado de fora do Bab Boujeloud, uma das entradas principais para a medina

Nosso simpático guia explicando sobre as casas existentes dentro da medina

É importante saber que é totalmente necessária a presença de um guia para acompanhar a visita. Mesmo para mochileiros de plantão e viajantes de carteirinha experientes, é um risco desnecessário se aventurar pelas ruelas da medina sem a compania de um guia.

São 9400 ruelas espremidas dentro de 15 km de muralhas. A chance de alguém se perder lá dentro é bem grande.

E isso inclui até mesmo os próprios marroquinos, pois eu vi no noticiário da TV local, à noite, uma reportagem sobre pessoas desaparecidas que foram vistas pela última vez na medina.

Outra vantagem de se ter um guia é que ele pode explicar melhor tudo o que é visto na medina, suas contruções, seu comércio, suas mesquitas. São informações que enriquecem o passeio e nos dão um prazer maior por estar conhecendo um mundo tão diferente do nosso.

Nosso guia era muito simpático e bem humorado. Antes de entrarmos,  ele deixou bem claro o risco de se perder lá dentro, quando disse alegremente:

Inshalá, vamos entrar na medida e Inshalá sairemos de lá.

Inshalá é uma expressão árabe usada à exaustão pelos marroquinos e quer dizer “Se Deus quiser”. Bom, depois de ouvir isso, nossa vontade em conhecer as ruelas da medina aumentou ainda mais.

Quando atravessamos o portão para entrar na medina foi como se tivéssemos sido transportados para outro século. É como voltar no tempo ou estar em um filme como aqueles que passavam antigamente na Sessão da Tarde. É outro mundo, outra realidade, outra cultura. As palavras parecem poucas para descrever toda a sensação que temos por estar lá, é preciso vivenciar para melhor compreender.

Estando espremida no meio da multidão, o primeiro pensamento que vem à tona é “Socorro, me tirem daqui”. O segundo pensamento ” Espere um pouco, parece interessante” e o terceiro e definitivo é ” Oba, me deixem aqui, isso é realmente divertido”.

A medina é formada por uma confusão de pessoas e bichos se movimentando, rezando, fazendo comércio, enfim vivendo o dia a dia marroquino. Ali nossos sentidos ficam aguçados, visão, tato, olfato e audição são bombardeados com imagens, cheiros, sons, objetos que combinam e diferem ao mesmo tempo, formando uma estranha, porém instigante sinfonia.

Pessoas se espremendo nas ruelas da medina

Medina em árabe significa cidade antiga. É o centro urbano em que se vivia, e que ainda se vive, em muitas das cidades árabes. Na medina de Fès (Fés el Bali) vivem cerca de 500 mil pessoas que habitam e transitam por suas ruas.

O comércio é formado pelo que poderíamos chamar de quiosques ou bancas, um do lado do outro, onde são vendidos cereais, carnes, utensílios domésticos, roupas e quaquer outra coisa que se queira comprar, tudo misturado. Algumas lojas são maiores formadas por casas espaçosas. São as lojas mais especializadas que vendem tapetes, roupas e especiarias.

Loja de azeitonas em uma das ruas da medina. As azeitonas são altamente apreciadas pelos marroquinos, sendo servidas inclusive no café da manhã

Quanto ao comércio de alimentos, laticínios, carnes e peixes, podemos dizer que eles desconhecem qualquer conceito de vigilância sanitária. Não há refrigeração e tudo fica muito exposto. Vimos até mesmo maços de coentro distribuidos em tapetes no chão, próximos aos pés das pessoas e mulas. Isso me faz pensar quão bom deve ser o sistema imunológico dos marroquinos.

Nos açougues é vendido de tudo, desde carnes de carneiros até de camelos. Todas as partes são apreciadas, inclusive as cabeças. Algumas placas anunciam em específico o preço das cabeças. Essas carnes também são vendidas sem refrigeração ou qualquer outra medida de higiene e ficam expostas próximas à passagem de pessoas, mulas e o que mais estiver transitando no local.

Cabeça de camelo sendo vendida em um açougue. Qualquer tipo de carne serve como fonte de alimento

Na medina não é possível entrar carros, então o transporte é feito com mulas que são conhecidas como os taxis da medina. Quando se escuta alguém falando “Balak Balak” é porque está passando com uma mula e por isso pede licença. Nesse caso é bom se espremer contra uma das paredes ou bancas para deixa-los passar, pois como dizia nosso guia, esse é um tipo de taxi que pode morder.

Taxis da medina

Escutamos muitos” Balak Balak” e era sempre uma diversão pois todos do grupo começavam a gritar Balak Balak também, juntamente com o dono da mula, porém obviamente os marroquinos eram bem mais discretos com o Balak do que nós viajantes admirados.

Lavadores de lã executam suas tarefas em uma das ruelas da medina

Para quem gosta de bichos e tem por hábito e crença defender os animais, como eu, a visão das mulas sobrecarregadas de peso, com a língua para fora, não é muito agradável. Dá pena dos pobres bichos trabalhando tão arduamente, carregando alimentos, tecidos, objetos pessoais e tudo o mais que puder ser colocado em suas costas.

O que não é carregado pelas mulas, acaba sendo transportado por carrinhos de mão ou levado nas costas das pessoas. Mesmo com pena das mulas, nota-se que a vida também não é fácil para os habitantes da medina e pessoas que necessitam transitar por lá diariamente.

 

Foi na medina de Fès que as cenas da novela O Clone foram gravadas. Curiosamente, eles lembram desse fato até hoje se referindo como a “famosa novela brasileira”.

As casas habitadas parecem ser muito simples vistas por fora, pois vemos apenas a porta de entrada, porém na verdade são grandes e espaçosas por dentro. Seguindo a arquitetura típica árabe, há um corredor por trás da porta de entrada que leva para um átrio central, alguns com fonte de água do meio, rodeado pelos cômodos.

No segundo andar ficam os quartos, geralmente espaçosos também e no último andar o terraço, que alguns usam como varanda ou quintal. É comum ver ali alguns varais com roupas estendidas para secarem.

A maioria das casas também possuem comunicação entre si, assim as mulheres poderiam visitar umas às outras sem precisarem sair nas ruas. Dessa forma, elas permaneciam grande parte do tempo dentro das moradias.

No alto das casas é possível ver pequenas janelas com grades de ferro feitas com desenhos arabescos. Essas janelinhas serviam para permitir às mulheres que vissem a movimentação das ruas sem serem vistas por quem lá estivesse passando.

Outro ponto em comum das casas dentro da medina é que elas não possuem forno, pois seria impossível assar alguma coisa nas casas sem “poluir” o ar da medina. Há um forno grande e comunitário que os moradores usam. É comum ver várias meninas novas carregando sobre as cabeças ou nas mãos tabuleiros de pães para assar ou recém assados no forno comunitário.

A estrutura interna das casas é bem visível nas lojas de tapetes ou couro que visitamos. As lojas, assim como as compras tão desejadas para quem vai ao Marrocos, serão melhor detalhadas em outro post. Isso porque comprar no Marrocos não é uma atividade qualquer, leva tempo e dedicação para o extenso processo de barganha tão característico do país.

Parecem estranhos, mas esses vegetais secos à venda são usados como palito de dentes pelos marroquinos

Os únicos momentos em que a vida dentro dos muros da medina parece se acalmar um pouco são durante as chamadas para oração. Nessa hora, várias pessoas se dirigem à mesquita mais próxima para orar. É nítida a mudança de humor nas ruas e comércios. O respeito pela fé e crença fala mais alto do que qualquer atividade cotidiana.

Uma rua incrivelmente calma e vazia durante o chamado para a oração. Algumas lojas já estão fechadas por causa do feriado religioso

Para que todos possam se dirigir à mesquita, há por todas as ruas uma linha formada por círculos salientes nas paredes. Essas bolinhas existentes por todos os lados servem para guiar os cegos, que tocando nas bolinhas conseguem se locomover em direção às mesquitas e assim cumprirem as obrigações religiosas.

Quando termina o chamado, a vida volta a pulsar freneticamente em todas as ruelas e comércios existentes.

Tâmaras,passas e outras frutas secas de um lado…

… e uma loja de vestidos ricamente bordados do outro

Estando dentro da medina, não se sente vontade de sair. Sem dúvida, é um mundo diferente, algo que parece ser possível apenas na imaginação ou nos contos árabes. Visitamos o local durante o dia e à noite, e cada momento foi prazeiroso e memorável, mesmo com toda a agitação da multidão, aumentada ainda mais por ser a véspera do feriado religioso, mesmo com a presença das mulas, carneiros e outros bichos se misturando com as pessoas. No final, tudo era novo e fascinante.

Vendedor de perfumes trabalhando à noite

Confusão em uma das lojas da medina

Para quem vai ao Marrocos, a visita à medina de Fès é com certeza um ponto obrigatório. Tanto por ser a medina mais antiga do mundo árabe, quanto por ser um experiência única, com direito a sermos transportados para outra época, um período onde o tempo permaneceu o mesmo, sem se alterar apesar de todas as mudanças ocorridas no mundo tecnológico em que vivemos hoje em dia.

De todos os lugares que visitei no Marrocos, a medina de Fès é um dos que mais me lembro com saudade e com uma imensa vontade de voltar para vivenciar novamente toda a confusão, aglomeração e barulho existentes por detrás das muralhas. Não é à toa que a medina faz parte do patrimônio mundial protegido pela UNESCO.

À noite, os muros da medina parecem ainda mais imponentes

 

Lavadores de lã executam suas tarefas em uma das ruelas da medina

Para quem gosta de bichos e tem por hábito e crença defender os animais, como eu, a visão das mulas sobrecarregadas de peso, com a língua para fora, não é muito agradável. Dá pena dos pobres bichos trabalhando tão arduamente.

Já li em alguns lugares que não compensa conhecer Rabat, a capital do Marrocos, principalmente quando comparada com as outras cidades imperiais como Fès e Marrakech.

Eu discordo muito dessa afirmação. Existem lugares lindos para visitar em Rabat e vou descrever alguns aqui.

O primeiro lugar que visitei na capital foi o Palácio Real, já falado no post anterior sobre Rabat.

De lá fomos para o Mausoléu de Mohammed V, avô do atual rei Mohammed VI, e o responsável pelo nome de várias avenidas por todo o Marrocos.

Chellah

Logo na saída do palácio, avistamos o Chellah, um belo conjunto de ruínas merínidas levantadas por cima de ruínas romanas.

O lugar, como já dá para perceber, tem um significado histórico duplo. Foi lá que os romanos construíram a antiga cidade de Sala Colonia. Até hoje ainda não foram descobertas ruínas significativas da presença romana no local, porém as escavações  já mostraram a existência da cidade e dão um idéia de sua importância na época.

Já a presença dos Merínidas, que vieram após os romanos, é bem mais evidente no Chellah. Os Merínidas foram uma dinastia bérbere (povo nativo do Marrocos) que reinou no país entre os séculos XIII e XV, logo após a queda dos Almóadas em Marrakech. Durante o reinado dessa dinastia, a capital foi transferida para Fès e posteriormente para Rabat.

A dinastia Merínida foi construída sobre uma combinação entre o islamismo tradicional e o folclore bérbere. Os governantes merínidas incentivaram muito o desenvolvimento das artes e arquitetura marroquina. Na época de seu domínio, o Chellah funcionava como um cemitério real.

Beleza e força da arquitetura merenida na muralha e porta do Chellah

Uma das partes que mais chama a atenção ​​do Chellah é a bela porta de 800 anos, típica da arquitetura merenida, que combina simplicidade e solidez. Em seu estado original, a porta era revestida de mármore com cores vivas e decorada com azulejos. Dá para imaginar que ela deveria ser então bem mais imponente e bela do que se vê hoje.

O Chellah abre diariamente das 9:00 as 17:30, o ingresso custa 10 dihans.

Mausoléu Mohammed V

Após passar o Chellah, chegamos ao Mausoléu Mohammed V, construído em 1962 pelo Rei Hassan II, o mesmo responsável pela construção da Mesquita Hassan II de Casablanca. Ele mandou construir esse imponente mausoléu em honra ao seu pai, o sultão Mohammed V, chamado pelos marroquinos como o “libertador do Reino”.

O sultão é lembrado como responsável pela luta que resultou na independência do Marrocos. Hoje em dia, Hassan II e seu irmão, Moulay Abdellah, também estão enterrados, ao lado de seu pai.

Fachado do Mausoléu de Mohammed V, construído com mármore branco e azulejos verdes

O mausoléu é uma obra prima da arquitetura hispano-mourisco e da arte tradicional marroquina.  Se do lado de fora ele já chama a atenção, do lado de dentro, seu encanto é ainda maior.

Foram necessários 400 homens para a construção do mausoléu, que levou cerca de 9 anos para ser completado.

 

Entrada principal do Mausoléu Mohammed V

Segurança com roupa típica guarda a porta que leva ao interior do mausoléu

A decoração rica em detalhes atinge o máximo da expressão e evolução da arte no Marrocos. Inscrições, desenhos, formas geométricas, cedro, ouro e mármore dão forma a um espaço belo e cuidadosamente planejado.

 

Interior do Mausoléu com a tumba principal do sultão Mohammed ladeada pelas de seus filhos

Rom Landau (1927-1974), autor britânico e estudioso da cultura árabe marroquina e também de outros países do Oriente Médio, escreveu que o Mausoléu de Mohammed V “une a majestade e a sobriedade da arte almoada, inteiramente dedicada à religião, a elegância e a pompa merenida e o sentido da grandeza das dinastias saadiana (séculos 16 e 17) e alaouita (séculos 17 e 18, os alaouitas são conhecidos por serem árabes descendentes de Maomé)”.

Bom, independente de conhecer ou não esses povos e dinastias, é impossível não se impressionar com a beleza do local.

Beleza do teto de cedro minuciosamente trabalhado

O Mausoléu constitui um importante santuário para os marroquinos e um dos poucos locais onde se permite a entrada de não-muçulmanos.

Devido à sua importância, seja história ou seja religiosa, o local é protegido por vários  guardas vestidos com vibrantes roupas vermelhas.

Inscrições e desenhos geométricos decoram as paredes do mausoléu

O Mausoléu de Mohammed V está localizado na Praça Al-Yacoub Mansour. A entrada é gratuita.

Mesquita Hassan

A Mesquita Hassan fica exatamente em frente ao Mausoléu do Mohammed V. Essa mesquita tem uma história bastante interessante e até certo ponto engraçada.

Inicialmente, a mesquita era o mais ambicioso de todos os edifícios almóadas. Ela foi encomendada pelo sultão Yacoub Al Mansour no final do século 12. Esse sultão pertencia à dinastia Almóada, uma potência religiosa bérbere que se tornou a quinta dinastia moura, tendo se destacado do século XII até meados do século XIII.

O desejo de Al Mansour era construir a maior mesquita do Marrocos, porém a mesma nunca foi concluída. Se tivesse sido finalizada, seria, na época, a segunda maior mesquita do mundo islâmico.

Mesquita Hassan, o projeto mais ambicioso, porém inacabado do sultão Al Mansour

Al Mansour decidiu construir a mesquita para celebrar sua vitória sobre o rei espanhol. Sua idéia de grandiosidade para o edifício superava até mesmo o número de habitantes em Rabat suficientes para frequenta-la.

Na época, a principal mesquita do Marrocos, localizada em Fès, tinha capacidade para 20.000 fiéis, no entanto, seriam necessários 100.000 fiéis para preencher a mesquita Hassan. Esse número nem de longe condizia com a população de Rabat, que naquele tempo era apenas um vilarejo elevado à condição de capital por Al Mansour.

Minarete inacabado de 50 metros de altura. O projeto inicial era de 80 metros

 

A torre teve sua construção iniciada em 1195, ao mesmo tempo em que a mesquita Koutoubia em Marrakech e a Giralda em Sevilha. Todas seguindo o estilo arquitetônico almóada.

Apesar de não aparentar, o minarete da mesquita Hassan é sem dúvida a mais complexa de todas as estruturas almóada, que caracterizam-se pela simplicidade e austeridade.

Cada fachada é diferente, com uma combinação distinta de padrões, com toda a complexidade das arcadas e curvas entrelaçadas sendo baseada em apenas dois modelos formais.

A parte cômica da construção da mesquita Hassan que os marroquinos gostam de contar fica por conta dos anseios religiosos e de grandiosidade de Al Mansour.

Segundo a tradição religiosa, quem constrói 7 mesquitas garante sua entrada direta no Paraíso com direito à compania de 14 virgens. A Mesquita Hassan, seria a sétima e maior mesquita a ser construída pelo sultão. Porém sua grandiosidade acabou atrapalhando seus planos, pois Al Mansour acabou falecendo antes de concluir seu projeto.

Com a sua morte, houve a mudança da dinastia almóada para a merínida e o seu sucessor simplesmente abandonou o projeto da construção da mesquita.

Al Mansour conseguiu construir durante sua vida seis mesquitas e meia e, por isso, o infeliz sultão não conseguiu garantir sua viagem de primeira classe para o Paraíso.

Independente de ter encontrado ou não as virgens no Paraíso, uma coisa é certa, Al Mansour passou a fazer parte das histórias bem humoradas que os marroquinos tanto gostam de contar.

A Mesquita Hassan abre diariamente entre 08:30 e 18:30, a entrada é gratuita.

Monumento que simboliza o compromisso, genialidade arquitetônica e devoção do povo marroquino, a Mesquita Hassan II é uma jóia da arquitetura moderna, situada em um dos bairros mais povoados de Casablanca.

 

Mesquita Hassan II ao fundo, tendo o museu e a biblioteca em primeiro plano

 

É a maior mesquita do Marrocos e a terceira mais importante da religião islâmica. Além disso, é a única mesquita do mundo que permite a entrada de não muçulmanos. Segundo o guia do local, isso ajudaria a explicar a fé muçulmana para pessoas de outras religiões.

Seja como for, é uma oportunidade única de conhecer o esplendor da arquitetura árabe, com todos os seus ricos detalhes, bem como a tecnologia surpreendente empregada para a construção da mesquita.

 

Mesquita Hassan II entre o céu e o mar

Construída uma parte sobre as águas do oceano Atlântico, a Mesquita é uma das mais belas edificações iniciadas pelo rei Hassan II, falecido em 1999 e pai do atual rei Mohammed VI. A mesquita foi construída sobre a água devido ao versículo do Alcorão que diz que “o trono de Deus estava sobre as águas”. A cor verde do teto e dos detalhes também faz referência à cor do Alcorão.

Antes do início de sua construção, o rei Hassan II declarou:

Desejo que Casablanca seja dotada de um edifício amplo e belo do qual possa orgulhar-se até o final dos tempos … Eu quero construir esta mesquita na água, porque o trono de Deus está sobre a água. Portanto, os fiéis que lá irão para rezar, para louvar o Criador em solo firme, poderão contemplar o céu e o mar de Deus.”

Bom, pode-se dizer que o rei cumpriu sua promessa presenteando Casablanca com uma bela mesquita construída com tecnologia de ponta, que impressiona o viajante independente da religião.

Detalhe do imenso pátio da mesquita

O projeto se iniciou em 1987 e levou 6 anos até ser completado, em 1993, frustrando os planos iniciais de inauguração na ocasião do 60° aniversário do rei em 1989. Participaram de sua construção 2.500 trabalhadores e 10.000 artesãos, contabilizando 50 milhões de horas trabalhadas (dia e noite).

 

Minarete ricamente trabalhado

Detalhe do alto do minarete da Mesquita Hassan II

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Os números são impressionantes e não páram por ai. Para a construção da Mesquita foram utilizados:

 

– 300 mil metros cúbicos de concreto

– 40 mil toneladas de aço

– 250 mil metros quadrados de mármore travertino e granito

– 10 mil metros quadrados de azulejo (zellige)

– 53 mil metros quadrados de cedro

– 67 mil metros quadrados de gesso

– 10 mil metros quadrados tadelakt (material de revestimento impermeável típico do Marrocos)

– 800 milhões de dólares

Mosaicos formados por zelliges

Obra prima da arquitetura árabe-muçulmana, a Mesquita Hassan II é, sem sombra de dúvida, uma proeza.

Ela constitui um complexo religioso e cultural, com área total de 9 hectares (90.000 m²), sendo composta por uma sala de oração, uma sala de ablução (purificação), banhos, uma escola corânica (medersa), uma biblioteca e um museu.

A capacidade total da mesquita é de 105 mil seguidores, sendo 25 mil apenas na sala de oração e os demais no pátio externo da mesquita.

 

Pátio externo da mesquita

Ela é considerada o maior edifício religioso do mundo árabe graças ao seu minarete de 200 m de altura. A torre foi construída apoiada somente em duas colunas. À noite, do alto do minarete, um laser aponta para Meca, com alcance de 30 km.

A função do minarete na mesquita é propagar a voz do almuadem ou muezim de seus alto falantes, de forma que possa chegar até todos os fiéis, convidando-os à oração. De acordo com as leis religiosas no Marrocos, nenhuma casa ou edifício na cidade pode ser mais alto do que o minarete, porque este foi feito para Deus e, segundo eles, seria arrogância construir algo para os homens maior do que para Deus. Além disso, fica fácil para os fiéis localizarem a mesquita pelo seu minarete.

Beleza e tecnologia se encontram no prédio da mesquita Hassan II

Sala de oração

Quando se entra na mesquita é necessário tirar os sapatos, que são armazenados em sacolas plásticas entregues aos visitantes. Logo que se entra já se espanta com a beleza interior, a riqueza de detalhes e suas impressionantes dimensões internas.

 

Interior da Mesquita Hassan II

Efeito da luz no interior da mesquita

A sala de orações possui uma área de 20.000 m² com capacidade para 25.000 pessoas. Ela consiste em dois níveis: o piso térreo usado para os homens e dividido em três naves simétricas, voltadas em direção à Meca, com capacidade de 20.000 pessoas e os dois mezaninos para as mulheres, que possuem uma entrada separada, com uma área de 3.500 m² e capacidade para 2500 pessoas cada.

 

Mezanino para as mulheres fazerem as orações

Cedro e bronze compõem a beleza do interior da mesquita

A sala de oração também possui um sistema de aquecimento no solo e caixas de som espalhadas, de forma muito discreta, para que todos possam ouvir a voz do líder da oração, o imam ou muazzin.

Existem ainda na sala 18 portas feitas de titânio e bronze. A porta muito pesada não se abre para o exterior. Ao invés disso, ela se levanta, puxada por engrenagens escondidas nas paredes. Realmente fantástico!

 

Porta de titânio e bronze que se ergue para a entrada das pessoas

Porta vista do interior da mesquita

No total existem 50 lustres e arandelas de murano veneziano com 8 tamanhos diferentes entre 3 a 6 metros de diâmetro, 5 a 10 metros de altura e 600 a 1.200 kg de peso.

O teto móvel pesa 1.100 toneladas e possui uma área de 3.400 m². O teto é uma estrutura metálica tridimensional coberto com madeira de cedro entalhada e pintada. O tempo total para a abertura dele é de apenas 5 minutos graças ao sistema motor em rodas que fornece a impulsão.

Quando o teto está aberto, os seguidores podem orar conforme o desejo do rei Hassan II, “vendo o céu e o mar de Deus”.

 

Lustre de murano veneziano, um dos poucos materiais usados não provenientes do próprio Marrocos. Na foto dá pra ver as duas colunas que sustentam o minarete.

No meio da sala de oração há um circuito fechado de água do mar chamado “Seguia“. Esse circuito serve para trazer a água do mar para o ritual de purificação realizado na sala de ablução.

No chão existem três aberturas com vista para as abluções. Uma parte do chão também é feita de vidro, de forma que os fiéis possam orar vendo o mar. Essa parte no entanto é reservada para a realeza.

Sala de oração com chão de vidro para visualização da sala de Oblução

Em ambos os lados da nave há duas colunas de granito sobre as quais está escrito, em ouro, a árvore genealógica do Rei Hassan II.

Na parte leste da sala de oração encontra-se o mihrab, que é a abóbada que direciona para Meca. O mihrab é feito de mármore branco de Carrara, azulejos (zelige) e gesso. Ele é usado pelo Imam para liderar as cinco orações diárias.

 

Detalhe dos desenhos do chão da sala de oração

Neste local também se vê o minbar, o balcão de mogno com incrustações de marfim usado toda sexta-feira para as orações.

Os detalhes das paredes e arcos são de um cuidado e uma delicadeza extraordinários. É impossível não ficar deslumbrado quando se visita o interior da Mesquita Hassan. A arquitetura, os detalhes da decoração e a força da devoção do povo são fatores que nos impressiona e emociona ao mesmo tempo.

 

O cuidado com os detalhes parece fazer parte da personalidade do povo marroquino. A caixa de som aparece discretamente na coluna

Eu fiquei muito feliz com a oportunidade de entrar em uma mesquita muçulmana. Apesar de ter muito contato com a cultura árabe há anos, eu nunca havia, fora do Brasil, a sentido de forma tão próxima. Para mim foi gratificante ter essa experiência e poder vivenciar o cotidiano de uma cultura que admiro bastante.

Uma cultura cheia de riqueza e encantamento que, ao meu ver, deveria ser separada dos acontecimentos internacionais que ocorreram nos últimos anos.

 

Pormenor dos desenhos geométricos. O Islã não permite reproduções humanas ou animais

Sala de ablução

Este é o local onde os fiéis se purificam antes da oração. A ablução consiste em lavar 3 vezes as mãos, boca, nariz, rosto, braços, cabeça, orelhas e pés até a altura do tornozelo. A ablução também pode ser feita em casa antes de se dirigirem à mesquita, mas a maioria faz nas muitas fontes de água do mar existentes no local.

 

Sala de Ablução

A sala de purificação é  de uma beleza incrível. É muito grande, com uma área de 4.800 m². No total são 41 fontes, incluindo 3 grandes e 38 pequenas. O desenho das fontes representa a flor de lótus.

 

41 fontes estão espalhadas em uma área de 4.800 m²

Além das fontes, ainda há uma centena de torneiras por todos os lados para que todos possam fazer o ritual da ablução.

 

Flor de lótus, símbolo da purificação, empresta seu formato às fontes da Sala de Ablução

Os lustres de cobre foram fabricados em Fès. Toda a sala é decorada com azulejos e revestida de tadelak vindo de Marrakech. O tadelak possui duas características, ele é resistente à umidade ao mesmo tempo em que mantém o calor no local.

O material consiste em uma mistura de argila arenosa, sabão, cal preto e gema de ovo. Graças à sua ação contra a umidade, os lustres da sala de ablução nunca precisaram ser lavados.

 

Um dos imponentes lustres da Sala de Ablução

Sala do Hammam

Hammam ou banho turco, combina as funcionalidades e a estrutura dos seus predecessores, termas romanas e banhos bizantinos, com a tradição turca dos banhos de vapor. A sala de Hammam é composta por 3 quartos, sendo uma sala morna, uma quente e, por último, uma muito quente.

 

Sala quente, antes da sala de vapor. Várias torneiras estão dispostas nas paredes, próximo aos mosaicos

A temperatura  da última sala pode atingir até 47°C, sendo o local onde se utiliza a água para o banho.

Sala do vapor. Hummm, que vontade...

O Hammam a vapor consiste de uma piscina aquecida equipada com saídas de vapor. A temperatura da água é de 38°C e a profundidade da piscina de 1,5 metro.

Também na sala de hammam se encontram zelliges magníficos bem como o revestimento em tadelakt.

Detalhe dos mosaicos

Medersa

É a escola corânica, conhecida como Mederda. Fica no lado leste da Mesquita Hassan II.

A biblioteca e museu

Ficam em ambos os lados da praça. São dois prédios idênticos e simétricos.

 

Fachada do Museu

Fachada lateral do prédio da biblioteca

Chamado para oração
No islamismo existem orações obrigatórias (Salat) que são praticadas cinco vezes ao dia. Essas cinco orações diárias contêm versículos do Alcorão que são recitados em árabe e são praticadas na alvorada, ao meio dia, no meio da tarde, ao crepúsculo e à noite. Assim, elas vão determinando o ritmo de todo o dia.

O dhan, ou o chamado para oração, é pronunciado em um tom melodioso pelo muazzin do alto do minarete.

 

Marroquina caminha em direção à mesquita enquanto se ouve o chamado para oração

Enquanto estava no Marrocos ouvi várias vezes o chamado para a oração. É muito bonito de se ouvir, assim como de se ver as pessoas caminhando em direção à mesquita para a oração. As ruas ficam mais vazias, as pessoas parecem se acalmar. Sem dúvida é um ritual muito bonito.

 

Tradução do Chamado para a oração:

Deus é Grandioso, Deus é Grandioso
Deus é Grandioso, Deus é Grandioso
Testemunho que não há outra divindade além de Deus
Testemunho que não há outra divindade além de Deus
Testemunho que Mohammad é o Mensageiro de Deus
Testemunho que Mohammad é o Mensageiro de Deus
Vinde à oração! Vinde à oração!
Vinde à salvação! Vinde à salvação!
Deus é Grandioso, Deus é Grandioso
Não há outra divindade além de Deus

 

Visitas guiadas

A Mesquita é aberta à visitação guiada em diversos idiomas todos os dias às 9, 10 e 11 horas da manhã e às 14:00, entre os meses de setembro até junho. Durante o período do Ramadã, a mesquita é aberta para visitação somente no período da manhã. Às sextas-feiras, a visita é feita mediante agendamento.

O bilhete de entrada pode ser comprado na própria mesquita e custa 120 dihans (aproximadamente 12 euros). Há desconto de 50% para estudantes, marroquinos, estrangeiros residentes no Marrocos. Estudantes marroquinos e crianças menores de 12 anos pagam 30 dinhans.

Mais informações:

Mosquée Hassan II

Sacred Destinations

 

Não, essa não é a frase dita, assim como o filme não foi gravado em Casablanca. A frase correta é “Play it once Sam” e o filme foi inteiramente gravado nos estúdios de Hollywood. Bom, seja como for, o filme contribuiu bastante para aumentar a fama da cidade.

Casablanca ou Dar el Baida é a capital econômica do Marrocos e a segunda maior cidade da África, depois do Cairo. Mais de 10% da população do país mora em Casablanca, correspondendo a mais de 3 milhões de habitantes.

A origem da cidade foi provavelmente como um posto de comércio Cartagiano conhecido como Anfa.

O porto existente no local era usado, dentre outras coisas, para a pirataria. O local foi dominado pelos árabes liderados pelo sultão Abd al-Mumin que derrotou os povos bérberes nativos do Marrocos.

A pirataria praticada nos portos, bem como sua localização estratégica, atraiu a atenção dos portugueses, que acabaram por invadir a cidade.

Casablanca foi destruída 2 vezes, em 1468 e 1515. Sessenta anos mais tarde, os portugueses reconstruíram a cidade.

A primeira casa erguida era branca, devido ao material usado na construção, o que originou seu nome: Casa Branca.

Como cada cidade no Marrocos tem uma cor que a representa, a cor de Casablanca não poderia ser outra que não a branca. Sendo assim, as construções da cidade seguem essa cor.

Os portugueses permaneceram em Casablanca por mais de 2 séculos, até o terremoto de 1755, muito comentado até hoje pelos guias locais.

Após a retirada dos portugueses, o sultão Mohammed ben Abdallah reconstruiu a cidade e deu-lhe o nome árabe Dar el Beida. Quando os espanhóis se instalaram no local, no final do século 18, rebatizaram a cidade com o nome Casablanca, que permanece até hoje.

Portão da medina de Casablanca

Fui para Casablanca em novembro de 2010. Foi a primeira cidade marroquina que visitei. No início fiquei preocupada com a temperatura, pois é quase inverno no hemisfério norte e muitos guias falavam de chuvas nessa época do ano no Marrocos.

Avenidas largas e limpas na parte nova de Casablanca, a Ville Nouvelle

Felizmente choveu apenas uma noite e a temperatura estava ótima. Não fazia tanto calor durante o dia e à noite a temperatura era amena, uma blusa de frio era mais do que suficiente. Portanto recomendo essa época para quem quiser conhecer as cidades imperiais.

Já para o deserto ou montanhas, o melhor é viajar até no máximo outubro, pois as noites no deserto podem ser bem geladas e as chuvas nas montanhas, além do frio, prejudicam muito quem deseja fazer alpinismo.

Embora seja menos turística que Fès ou Marrakech, Casablanca não deixa de ser um destino agradável. Porém não é necessário mais do que dois dias na cidade. Melhor gastar mais tempo em Marrakech.

Casablanca é uma cidade mais moderna, quando comparada com outras cidades do Marrocos. As principais indústrias do país se concentram ai. A cidade é mais cosmopolita e também mais ocidentalizada. Vi algumas mulheres sem véu e nenhuma usando a burca, bem como casais andando de mãos dadas.

Brasil, sempre presente

O trânsito, assim como em muitas cidades grandes, é caótico. Ouve-se uma sinfonia de buzinadas quase o tempo todo.

Para se locomover na cidade, pode-se pegar os taxis que não são caros. Existem os taxis brancos chamados de Grand Taxi que percorrem um trecho definido, normalmente periferia-centro. Os taxis vermelhos são chamados de Petit Taxi e funcionam como os nossos taxis, com taxímetro.

Aliás é sempre bom conferir se o taxímetro está funcionando antes de pegar o taxi. Preços fechados combinados antes geralmente saem mais caros do que quando se usa o taxímetro.

Marché Central

Um lugar divertido e característico para se visitar em Casablanca é o Mercado Central (Marché Central). É o principal mercado no centro da cidade. Foi criado durante o protetorado francês para satisfazer as necessidades dos europeus. Hoje em dia é frequentado por marroquinos e turistas curiosos.

Entrada do Marché Central

Mesmo para quem não deseja comprar nada, vale a visita. No mercado encontram-se bancas de flores, peixes, mariscos, frutas, secas, especiarias e outras coisas que fazem parte do coditiano marroquino.

Lá se vê o preparo dos peixes, a forma como são armazenados nas bancas (sem muito conhecimento dos conceitos de vigilância sanitária…) e principalmente muitos gatos rondando as bancas de peixes e roubando alguns pedacinhos que caem ou que sobram nas bacias onde grandes peixes como o peixe espada são lavados e cortados, se necessário.

Frutas frescas em uma banca típica

Peixes dispostos como em uma pintura em uma das muitas bancas de peixe do Marché Central

Pode parecer um destino não muito convidativo, visitar mercados e suas bancas. Porém, acredito que são nesses lugares que se vê  e se sente o puro espírito de um lugar e seu povo.

O mercado mistura os diferentes  e agradáveis odores das especiarias e frutas frescas com o cheiro forte, que dispensa qualquer descrição, dos peixes. Lá se vê pessoas do lugar em suas atividades coditianas em um cenário próprio e não em um daqueles especialmente projetados para atrair turistas, aqueles que representam o país apenas de forma superficial.

É o local onde Latifa vende seus peixes frescos aos Abdallahs e Alis de Casablanca.

A diversidade de cores e odores das especiarias marroquinas

Por estes e outros motivos que gostei bastante de visitar esse mercado e recomendo o passeio para quem for a Casablanca.

O Marché Central se localiza na Rue Chaouia e fica aberto entre 6:00 e 14:00. Há uma entrada também no Boulevard Mohammed V.

Filhotes a procura de sobras de peixes. Os donos das bancas também oferecem pequenos pedaços aos bichanos

Boulevard Mohammed V

Na região do Boulevard Mohammed V pode-se ver lindas construções típicas de Casablanca, de estilo Art-Déco (abreviação de arts décoratifs) em combinação com o estilo mouro. A arquitetura art-déco foi uma idealização francesa em conjunto com a arte mouravida já existente no Marrocos.

Art déco foi um movimento popular internacional de design de 1925 até 1939. Este estilo afetou as artes decorativas, arquitetura, design de interiores e desenho industrial, assim como as artes visuais, moda, pintura, artes gráficas e cinema. Este movimento foi, de certa forma, uma mistura de vários estilos e movimentos do início do século XX, incluindo construtivismo, cubismo, modernismo, bauhaus, art nouveau e futurismo.

Boulevard Mohammed V. Mohammed V era o avô do atual rei do Marrocos: Mohammed VI.

A Art déco também procurou inspiração no estilo tradicional marroquino, e por sua vez, teve uma grande influência mais tarde na arquitetura moura, como as janelas, escadas e varandas de ferro fundindo e desenhos florais, geométricos ou de animais em frontões e frisos.

A sua popularidade na Europa foi durante os anos 20 e continuou fortemente nos Estados Unidos através da década de 1930. Ao contrário de muitos movimentos de design que tiveram suas raízes em intenções filosóficas ou políticas, a Art Déco foi meramente decorativa, sendo visto como estilo elegante, funcional e ultra moderno.

Durante o protetorado francês, os franceses residentes eram proibidos de morar nas casas existentes dentro da medina (cidade antiga). Assim, os arquitetos franceses foram construindo casas e edifícios públicos nos bairros novos, chamados de Ville Nouvelle. Essas construções seguiam o então estilo da época, a Art-Déco.

Exemplo da arquitetura Art-Déco de Casablanca

Um belo exemplo da combinação do estilo mouro e art-déco é o Hôtel Lincoln, situado no Boulevard Mohammed V em frente ao Marché Central. O edifício foi construído em 1916 e infelizmente encontra-se hoje em ruínas. Conforme descrito no guia Lonely Planet, “o prédio está pacientemente à espera de uma tão falada restauração“.

Hôtel Lincoln a espera de uma necessária restauração

O Hôtel Lincoln já foi cenário para um filme americano sobre a guerra na Somália. Em 2006, o jornal La Gazette du Maroc publicou uma matéria sobre a promessa de restauração e sua lentidão em começar: Hôtel Lincoln à Casablanca : L’histoire réhabilitée (Hôtel Lincoln em Casablanca: a história restaurada).

É realmente uma pena que um edifício tão belo, um exemplo de uma arquitetura tão rica, esteja nesse estado de deterioração.

Detalhe da fachada do Hôtel Lincoln

Place Mohammed V

Próxima ao Boulevard Mohammed V, está a Avenida Hassan II. Esta avenida leva até a Place Mohammed V, antigamente conhecida por Place des Nations Unies. Esta praça rodeada de prédios públicos é o coração de Casablanca e o local onde as principais ruas e avenidas se cruzam. Na praça também há uma fonte musical com jatos de água coloridos e muitos aguadeiros a espera de turistas querendo tirar fotos e seus dihans (moeda do Marrocos).


Aguadeiro na praça Mohammed V

 

Aguadeiros são pessoas vestidas com roupas e chapéus coloridos. Antigamente não havia água dentro da medina e eram os aguadeiros que levavam água até os moradores que lá habitavam. Eles carregam um recipiente com água e várias “canecas” de metal penduradas no pescoço.

Hoje em dia, eles ainda vendem água, mas a principal atividade desses aguadeiros é realmente tirar fotos com os turistas.

Quando chegamos na praça, eles se aproximam rapidamente já se preparando para as fotos. Em troca, lógico, pedem dihans, uma prática comum por todo o Marrocos. Se desejar tirar fotos, deve-se pagar por elas.

 

Quanto pagar para os aguadeiros ou performistas é sempre uma dúvida para os viajantes. Em geral pode dar entre 10 e 20 dihans. É claro que o valor vai depender da quantidade de fotos tiradas. Mais fotos, mais dihans. Na dúvida, combine antes o valor das fotos.

Embora eu tenha lido em vários sites e blogs que os performistas e aguadeiros ficam agressivos se a pessoa não paga ou se o valor dado é baixo, eu particularmente não presenciei isso em Casablanca, já em Marrakech a coisa muda um pouco.

Mas não há motivos para preocupação em demasia. Quem quiser tirar fotos, pode tirar calmamente.

Para ter uma idéia do valor, 11 dihans correspondem a cerca de 1,00 euro.

Por outro lado, quem não quiser tirar fotos, deve deixar isso bem claro, pois os marroquinos sabem ser bem insistentes.

Estando na Place Mohammed V, do lado esquerdo (de quem vem da Boulevard Mohammed V) está o Palais de Justice (Palácio da Justiça), construído em 1925. A enorme porta principal e a entrada foram inspirados no  iwan persa, que define-se como um corredor ou espaço abovedado, fechado entre três paredes, estando a quarta parede inteiramente aberta ao exterior.

Palais de Justice na Place Mohammed V

A praça ainda é rodeada por outros prédios públicos seguindo um estilo racional planejado pelos arquitetos franceses Henri Prost e Robert Marrast que planejaram o desenho da praça para uma população de 150 mil, o que era um número muito maior do que o número de habitantes em 1924. Porém a população crescente de Casablanca ultrapassou a estimativa logo em 1923.

Henri Post é o principal responsável pelo estilo arquitetônico de Casablanca. Ele combinou o estilo tradicional marroquino com idéias de urbanização européias existentes na época.

Prédio público na Place Mohammed V

Outras construções que chamam a atenção próximas à praça são: o prédio da sede da agência de correios, inaugurado em 1919. Um maravilhoso edifício facilmente reconhecido pelos arcos e colunas de pedra, pelos mosaicos azuis e pelo teto e lustre de bronze; o Banque al Maghrib, claramente em estilo tradicional marroquino, sendo o último edifício construído na praça; e, por último o prédio da Ancienne Préfecture, de 1930. Conhecida como Wilaya, a construção em estilo colonial francês possui uma torre de 50 metros com um relógio no alto.

Ancienne Préfecture ou Wilaya

Continuando na Avenida Hassan II, no cruzamento com o Boulevard Moulay Youssef, encontra-se o Parc de la Ligue Arabe. Esse parque foi criado em 1918 com o objetivo de formar na cidade um “oásis” de descanso, diversão e local para caminhada.

As belas palmeiras ladeando a avenida criam um ambiente tranquilo que contrasta com o burburinho da cidade. É um lugar que convida para uma agradável caminhada.

Parc de la Ligue Arabe

Aïn Diab, a praia

A praia de Casablanca fica no bairro Aïn Diab. A praia começa próximo da velha Medina, passa pela Mesquita Hassan II, e continua por cerca de 3 Km. No entanto, a maior atração de Aïn Diab não é tanto o mar, mas sim os clubes existentes no Boulevard de la Corniche. Essa região muito agradável é repleta de hotéis/clubes com piscinas, normalmente preenchidas com água do mar filtrada, restaurantes, bares e discotecas.

Esteiras de um clube no Boulevard de la Corniche

Com vista para a praia, no Boulevard de la Corniche, também se encontram as villas, que são as grandes e bonitas casas de sauditas afortunados.

As praias parecem ser mais frequentadas por turistas do que por nativos e não deixa de ser interessante ver, no mesmo ambiente, a presença de turistas de biquines no meio de mulheres com véus.

Villas em Aïn Diab

O Boulevard de la Corniche é uma região muito agradável para uma caminhada no calçadão repleto de nativos com suas famílias e turistas contentes. Nesse local se encontram vários restaurantes. Uma boa dica é pedir peixes ou frutos do mar, uma vez que Casablanca fica no litoral e o peixe é sempre fresco. Deixe para comer as comidas típicas como o tajine ou cuscuz nas outras cidades, mesmo porque corre-se um sério risco de se cansar de comê-los todos os dias.

Mais informações:

http://www.casablanca.ma

http://www.morocco.com

http://www.visitmorocco.com

Marrocos sempre foi um sonho para mim, porém apesar de desejar conhecer o país, acabava sempre escolhendo outro destino na hora de arrumar as malas, na maior parte das vezes a Europa. Foi assim em 2006 e 2007, quando, em ambas as ocasiões, acabei optando pelo Velho Continente ao invés do Marrocos.

E dessa vez não foi tão diferente afinal, eu estava pesquisando roteiros para Egito ou Turquia, quando me deparei com a descrição de um roteiro para Tunísia e Marrocos. Bom, devido a restrições de disponibidade de tempo, a Tunísia foi deixada para uma outra oportunidade e, dessa vez, Marrocos sobressaiu como o destino certo para a ocasião.

É claro que a Europa, minha eterna paixão, acabou sendo de uma forma ou de outra incluída na viagem, com uma rápida passagem pela Espanha com direito a muitos tapas e vinhos. Porém a Espanha fica para outro post. Vamos voltar ao Marrocos.

 

Estreito de Gibraltar. Apenas 14,4 km separam Espanha e Marrocos.

É incrível como muitas pessoas (e me incluo aqui) imaginam a África um destino tão longe, mas não a Europa, sendo que Espanha e Portugal são países vizinhos ao Marrocos. A viagem para esse belo país africano provou para mim que, afinal de contas, a “África é logo ali” (como diria o Vanucci).

Mesmo quando pensamos no custo de uma viagem à África, podemos nos surpreender, pois uma pesquisa de roteiros, pacotes e passagens me mostrou que ir para o Marrocos, Tunísia ou Egito pode ser mais barato do que uma viagem aos nossos vizinhos Chile ou Peru.

Marrocos é um país encantador logo no primeiro contato. Seu povo, sua cultura, sua arquitetura, sua arte, seu jeito especial de ser uma mistura árabe e africana com uma pitada européia, o tornou um lugar cativante, especial, um país que sentimos saudades mesmo antes de partir.

E quando saimos do Marrocos somos impregnados com a eterna sensação de que devemos voltar, seja para rever suas maravilhas, seja para conhecer novos encantos.

Simpatia e hospitalidade dos marroquinos na Mesquita Hassan II em Casablanca

Sua cultura complexa é formada por árabes e berberes e remonta a tempos antigos construídos durante várias invasões de árabes e europeus (romanos, e mais recentemente franceses, portugueses e espanhóis). A história do Marrocos está intimamente ligada à sua localização geográfica. Objeto de desejo de muitos impérios durante séculos, desde o Império Romano até o protetorado francês, sendo que o Reino do Marrocos ganhou sua independência efetiva somente em 1956.

Ponto de encontro das principais caravanas de comércio e excepcional base militar estratégica, o  Marrocos conseguiu enriquecer seu patrimônio cultural a partir de todas essas ricas experiências históricas. O resultado foi uma mistura de cultura e arte hoje plenamente expressas através da diversidade de línguas faladas no Marrocos (árabe, berbere e francês), das religiões que convivem em harmonia (islamismo, judaísmo e cristianismo), e de seus magníficos artesanatos, fabricados há séculos quase que da mesma forma.

 

Interior da medina de Fès, a maior e mais antiga medina do mundo árabe

O Marrocos preservou sua identidade e valores ao longo dos séculos, sem no entanto deixar de se modernizar e de investir em seus recursos, principalmente na exploração do fosfato e no setor de turismo.

A imagem que nos traz é de um povo forte e sereno ao mesmo tempo, ligado em seus valores tradicionais, porém livre de extremismos religioso ou político.

 

Jelaba, a roupa típica de inverno usada no Marrocos

O Islamismo é a religião oficial do país, sendo parte fundamental da história do Marrocos há 14 séculos, orientando a vida espiritual marroquino. O Islã está presente no coração da vida marroquina, através dos costumes, arquitetura e educação. A chamada para a oração pontua a vida das mesquitas marroquinas, mausoléus e escolas corânicas. São hinos fortemente presentes no cotidiano das pessoas.

No entanto, o reino do Marrocos continua a ser essencialmente uma terra de tolerância, onde todos os credos vivem em harmonia. Por séculos, marroquinos judeus e muçulmanos convivem em respeito um ao outro, garantindo a liberdade de culto para uma comunidade diversificada, amigável, equilibrada e hospitaleira.

Muçulmano aguardando o chamado da Mesquita

A complexidade desse país nos desafia a descrevê-lo, mesmo que eu tentasse uma lista imensa de palavras e adjetivos, ainda assim o resultado seria simplificado e superficial. Afinal palavras não conseguem transmitir a beleza das montanhas Atlas, a singularidade de Marrakech, a riqueza dos detalhes encontrados nos mosaicos e outros artesanatos ou o sabor do chá de menta servido em todos restaurantes.

Eu a caráter no Hari Souani construído por Moulay Ismail em Meknès

Uma viagem ao Marrocos não se resume apenas em conhecer suas cidades, montanhas ou deserto. É mais do que isso. O país nos convida a um mergulho em sua cultura milenar, sua língua, sua escrita, seus mosaicos magníficos, sua gente.

Um passeio ao Marrocos não acontece sem sentir a vida pulsante e intensa existente dentro dos muros das medinas, sem sentir os mais diversos odores e cores de suas especiarias, dos tajines e cuscuz servidos em todos os lugares, sem ser arrastado para a multidão composta por nativos e turistas na praça Djemma El Fna, repleta de encantadores de  serpentes, adestradores, contadores de história, performistas e outros em busca da atenção e moedas dos turistas.

Sem dúvida alguma, Marrocos é um país cheio de encantos e surpresas, que nos presenteia com a magia das 1001 noites e, principalmente, com um destino prazeroso e inesquecível.