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Detalhe de uma coluna coríntia em Volubilis

No post anterior, falei sobre o sítio arqueológico de Volubilis desde a entrada até o final da Decumanus Maximus, a principal via leste-oeste das cidades romanas. Agora partiremos desse ponto até a saída de Volubilis.

Ao final da Decumanus Maximus, encontra-se a Maison à l’Ephèbe (Casa de Éfebo), que recebeu esse nome devido à estátua de bronze de um jovem (éfebo) encontrada em suas ruínas e hoje em exposição no museu de Rabat.

O desenho da casa é muito semelhante à Casa de Orfeu, com um átrio central, quartos privados e públicos e uma prensa de azeite na parte traseira. Essas prensas, aliás, eram bem comuns em Volubilis, já que um dos principais cultivos existentes era de olivas.

O mosaico na casa mais conhecido é uma representação de Baco, o deus do vinho, em uma carruagem puxada por panteras.

Nesse ponto, a Decumanus Maximus cruza com a Cardus Maximus, que era a principal via norte-sul das cidades romanas. Era nessa via que se encontravam as principais construções como fórum, capitólio e basílica.

Um fator interessante da Cardus Maximus era que essa via era sempre direcionada para a próxima cidade romana, e assim sucessivamente, até chegar em Roma. Daí se originou o ditado “Todos os caminhos levam à Roma“.

Neste cruzamento, encontra-se o belíssimo Arco Triunfal ou Arco de Caracalla, construído em 217 DC em homenagem ao imperador Caracalla. O arco relativamente preservado possui colunas coríntias feitas com mármore importado. Em cada pilar encontram-se medalhões esculpidos que retratam provavelmente o imperador Aurelius Antoninus (Caracalla) e sua mãe Julia Augusta, cujo nome também está nas inscrições acima do arco.

Belo Arco de Caracalla no cruzamento da Decumanus Maximus com a Cardus Maximus

O propósito do arco era claramente o de mostrar a onipotência de Roma e de seu imperador aos olhos das populações árabes. As inscrições acima do arco exaltam as virtudes e o poder do imperador Caracalla e de sua mãe Julia Augusta.

Detalhe das inscrições existentes no alto do Arco de Caracalla

Logo ao lado do Arco de Caracalla está a Maison au Chien (Casa do Cachorro), que recebeu esse nome devido à estátua de bronze de um cachorro encontrada no local. A casa é facilmente reconhecida por ter em seu interior uma pedra com um orgão masculino esculpido. A escultura servia para indicar o caminho para o bordel, um tipo de casa existente em todas as cidades romanas. Os bordéis eram identificados por sinais como esse, pintados ou esculpidos, sempre apontando em direção ao estabelecimento.

Também em frente ao Arco de Caracalla e a Maison au Chien, encontram-se as Termas, onde ficavam os banheiros públicos.

Termas romanas existentes no centro de Volubilis, em frente ao Arco de Caracalla

Os banheiros romanos geralmente são reconhecíveis por possuírem lugares para se encostar, como assentos, por onde passava água corrente por baixo para levar os resíduos. Os assentos eram distribuídos de forma cicular. Os menores no interior eram destinados para mulheres e crianças, enquanto os maiores no exterior eram para os homens.

Imagino que esses banheiros públicos não deviam ser nada agradáveis nem higiênicos. Segundo o guia, a água que corria por baixo continha rosas com o objetivo de mascarar o odor. Arghhh!

Guia mostrando como as pessoas se sentavam nos banheiros públicos

Continuando a caminhada pela Cardus Maximus, chegamos na Maison au Desultor (Casa do Atleta ou Casa do Acrobata), onde há mosaicos se referindo à vida cotidiana de Volubilis. Um deles retrata um acrobata em cima de um cavalo, outro mostra o desenho de peixes com a inscrição Piscat (pesca) em cima.

Mosaico mostrando um acrobata sentado de costas em um cavalo

Chegamos agora nas principais construções romanas em Volubilis. A primeira delas é o Fórum ocupando uma área de 1300 metros². O Fórum consistia na principal base da vida administrativa, política e religiosa da cidade. Era no Fórum que eram feitos discursos em homenagens a algum nobre falecido ou ao imperador.

Em um dos lados do prédio ficava o templo e no outro, a Basílica. O local era rodeado de muitas estátuas de mármore ou bronze, porém hoje em dia restam apenas os pedestais das mesmas.

Ruínas do Fórum, centro da vida política, administrativa e religiosa da cidade

A Basílica estende-se por cerca de 1000m². Sem dúvida, esta é a construção que mais chama a atenção em Volubilis. Logo da entrada já é possível ver suas imponentes ruínas.  Era na Basílica que aconteciam as audiências  judiciárias e a administração da cidade, dirigida por sete juízes.

Este é um dos locais mais bonitos de Volubilis que fornece um belo exemplo da arquitetura romana, além de mostrar claramente como funcionava a parte política e administrativa da cidade na época.

Basílica de Volubilis, um dos principais prédios da cidade romana

Logo atrás da Basílica está o Templo Capitolino, construído em honra do imperador Macrinus em 217 DC.  O templo ficava em um espaçoso pátio pavimentado, cercado de vários  pórticos. Ao pé da escadaria ficava o altar retangular para os sacrifícios.

O Templo Capitolino possui quatro colunas na frente que foram  magnificamente restauradas e duas outras na parte posterior.

Imponentes ruínas do Capitólio com um lindo ninho de cegonha em uma das colunas

Chegamos agora ao final da Cardus Maximus e da visita aos principais pontos de Volubilis.

Como dá para notar, vale muito a pena visitar Volubilis. Esse grande sítio arqueológico merece ser explorado calmamente, pois há várias casas, mosaicos, ruas, arcos e os belos edifícios públicos como a Basílica, o Fórum e o Capitólio. Volubilis nos presenteia com uma mostra muito completa do que era uma cidade romana na época, sua organização, mosaicos e arquitetura.

Como acontece em vários outros sítios arqueológicos, muitas das peças encontradas no local estão dispersas por vários museus no mundo. Algumas peças porém permanecem no Marrocos, no Museu Arqueológico em Rabat.

Infelizmente também, muitos dos mármores existentes nas construções foram retirados a mando do sultão megalomaníaco Moulay Ismail para as suas construções em Meknès, contribuindo para a depredação do local. Além disso, vários prédios que ainda estavam de pé acabaram por ruírem devido ao terremoto de Lisboa em 1772.

Uma das muitas oliveiras existentes no local, principal cultivo de Volubilis (não caiam na tentação de provar uma, são terrivelmente ruins...).

O simpático guia local que nos acompanhou lamentou profundamente que Volubilis não está tão preservada quanto deveria e completou falando que ainda tem muito o que explorar no local, pois, na verdade, menos da metade de todo o sítio foi escavado.

Fico imaginando quanta riqueza e história ainda estão escondidas abaixo de toda aquela imensa área a ser escavada.

Ruínas de Volubilis rodeadas pela bela paisagem das Montanhas Atlas.

O sítio arqueológico de Volubilis, assim como o Heri es Souani de Meknès, foi usado como cenário para o filme de  Martin Scorsese, A Última Tentação de Cristo.

O local é aberto diariamente ao público entre 9:00 e 12:00 e depois das 14:30 às 18:00. O ingresso custa 20,00 dihans, aproximadamente 2,00 euros.

Mais informações:

Site de Volubilis

Após conhecer Meknès, fui para Volubilis, um sítio arqueológico, protegido pela UNESCO desde 1997. A cidade que ali existia pertencia ao Império Romano,  porém, sua origem parece ser ainda mais antiga. Algumas escavações feitas em 1915 revelaram que o local já era habitado na Idade do Ferro e no período Cartagiano no século 3 AC.

Com a dominação romana, em 45 DC,  o local ganhou as características típicas da urbanização das cidades romanas: muralhas, fórum, capitólio e basílica. A cidade aumentou de tamanho e ganhou uma grande malha de ruas em 169 DC.

Como muitos lugares no Marrocos, existem guias locais na entrada oferecendo seus conhecimentos. Nesse caso, compensa aproveitar a presença do guia, pois ele nos mostra detalhes que passariam despercebidos ou seriam interpretados erroneamente. Os guias falam inglês, francês, espanhol e árabe.

Volubilis fica a apenas 33 km de Meknès e 4 km de Moulay Idriss. É possível se hospedar em qualquer uma dessas cidades e de lá pegar o Grand Taxi para até Volubilis. Esses taxis são do mesmo tipo existentes nas demais cidades do Marrocos e não saem muito caro.

As ruínas que se vê hoje em dia são dos séculos II e III DC. Estima-se que em seu auge, Volubilis tinha uma população de cerca de 20.000 pessoas. A cidade era o posto mais afastado de Roma e fornecia ao Império olivas e trigo, além de animais selvagens como leões e ursos do Atlas para os jogos nas arenas. Foram tantos animais enviados à Roma, que o urso do Atlas, único urso da África, entrou em extinção. O último a ser visto foi em 1867, na fronteira entre Marrocos e Argélia.

Ruínas do templo com as montanhas Atlas ao fundo

A entrada  para a cidade romana é feita pela porta sudeste. De lá dá para ver a cidade sagrada de Moulay Idriss e seu formato de camelo deitado. A paisagem ao redor também é muito bonita, com as montanhas Atlas ao fundo.

Começamos a caminhada pelo sítio arqueológico andando por entre as ruínas do Templo dedicado a Saturno, deus do tempo (Cronos para os gregos), porém, o templo parece ter sido um local de adoração para os cartagianos também, pois várias oferendas votivas foram descobertas durante as escavações.

Ruínas de um dos templos encontrados em Volubilis

Passando pelas ruínas, chega-se à rua do Aqueduto construído ao final do primeiro século DC. O aqueduto coletava água de uma fonte localizada a cerca de 1 kilometro da cidade. Dele saiam tubulações que forneciam água para as casas particulares, fontes e banhos e banheiros públicos.

No alto da rua do Aqueduto, encontra-se a Maison au Cortège de Vénus (Casa da Procissão de Vênus), onde estão um dos mais preservados mosaicos de Volubilis. Não se pode entrar na casa, mas é possível ver os mosaicos andando ao redor dela. O primeiro mosaico mostra a cena da deusa da caça, Diana, sendo surpreendida durante o banho pelo caçador Actéon. Irritada com a intromissão, Diana transforma o descuidado caçador em um cervo que acaba sendo devorado pelos próprios cães.

Belíssimo mosaico representando a cena de Diana sendo surpreendida no banho por Acteón

O segundo mosaico mostra a cena de Hylas sendo seduzido e levado pelas ninfas do lago. Hylas era um rapaz amado por Hércules que foi raptado pelas ninfas da água quando foi matar a sede em um rio.

A casa de Vênus é uma das maiores de Volubilis (mais de 1000 m²) e mostra o típico arranjo de casas romanas. A entrada principal conduz a um vestíbulo de grande porte que se abre diretamente para um pátio com piscina. Ao redor do pátio estão os quartos e salas de recepção, estar e jantar. Não se sabe quem morou nessa casa, mas com certeza fazia parte da alta classe de Volubilis, pois foram encontrados os bustos de Cato e Juba II, personagens importantes na história de Roma.

Detalhe da Maison au Cortège de Vénus, mostrando algumas paredes e o chão enfeitado com o mosaico de Diana e Acteón

Chegamos agora na rua principal de Volubilis, a Decumanus Maximus, essa avenida existia em todas as cidades romanas, sendo a principal via que ligava a cidade na direção leste-oeste.  Nela se encontravam as melhores mansões e seus belos mosaicos. No topo da Decumanus Maximus se vê a Porta de Tanger que data de 168 DC e servia como porta de entrada para Volubilis.

Porta de Tanger vista da Decumanus Maximus, o portal servia como entrada para a cidade

Continuando pela Decumanus Maximus, iremos passar por várias das principais mansões de Volubilis. Logo no início se encontra o Palais de Gordien, facilmente reconhecido pela quantidade de colunas. O local era a residência dos procuradores que administravam a cidade. Infelizmente, hoje se encontra bem depredado e sem mosaicos, graças aos saques comandados por Moulay Ismail de Meknès.

Colunas que restaram do Palais des Gordien

Na sequencia, ao lado direito, tem-se as casas Maison des Fauves, com mosaicos de leões, panteras e tigres, Maison du Bain des Nymphes e Maison de Dionysos. Bem de frente, do outro lado da rua, está a Maison des Néréides. Na Maison de Dionysos, o deus do vinho é representado nos mosaicos coroado com folhas de videira. Além do deus, os mosaicos também fazem alusão às quatro estações do ano.

Detalhe do mosaico na Maison de Dionysos, o deus do vinho conhecido também como Baco.

Após, tem-se a Maison aux Travaux d’Hercule (Casa dos Trabalhos de Hércules). Nessa casa, os mosaicos, distribuídos em painéis ovais, representam os 12 trabalhos que Hércules executou: Matar o leão de Neméia, matar a Hidra de Lerna, capturar o javali de Erimanto, capturar a corsa de Cerinéia, que tinha os cascos de bronze e os chifres de ouro, expulsar as aves do lago Estinfale, na Arcádia, limpar os estábulos do rei Augias, da Élida, em um só dia, capturar o touro selvagem de Minos, rei dos cretenses, capturar os cavalos devoradores de homens do rei Diomedes da Trácia, obter o cinto de Hipólita, rainha das Amazonas, as mulheres guerreiras, buscar o gado do monstro Gerião, levar as maçãs de ouro do jardim das Hespérides para Euristeu e, por fim, capturar Cérbero, o cão de três cabeças que guardava os infernos.

Na casa de Hércules também há mosaicos com motivos para espantar o mau olhado, como golfinhos, tridentes e a suástica.

Detalhes do belo mosaico existente na Casa dos Trabalhos de Hércules

A casa vizinha é a Maison au Cavalier (Casa do Cavaleiro), com o parcialmente destruído, porém belo, mosaico de Dionísio descobrindo sua amada Ariadne dormindo na praia de Naxos. A casa ganhou esse nome por ter sido o local onde foi encontrada, em 1918, uma estátua de bronze de um cavaleiro. A casa apresenta um formato quadricular com uma área total de 1700 m².

Olhando o estraordinário mosaico, fica-se imaginando como era feito na época um trabalho tão detalhista e perfeito.

Mosaico incompleto mostrando Dionísio e Ariadne na praia de Naxos

Atravessando uma porta, entramos na casa vizinha, a Maison aux Colonnes (Casa das Colunas), parcialmente restaurada. A casa não possui mosaicos, no centro há uma grande piscina circular rodeada por colunas retorcidas, as quais deram origem ao seu nome.

É possível entrar nessa casa e andar ao redor da piscina.

Interior da Maison aux Colonnes com as colunas retorcidas ao fundo

Chegamos agora ao final da Decumanus Maximus, no cruzamento com a Cardus Maximus, próximo ao Arco de Caracalla. Essa outra parte do sítio arqueológico de Volubilis inclui alguns dos prédios mais bem conservados e será descrita no próximo post.