Minha primeira experiência como mochileira foi viajando sozinha. Acompanhada apenas pela minha mochilassauro de 68 litros, uma companheira fiel de jornada.

Muitos me diziam que era loucura viajar sozinha, mas há muito que eu planejava uma viagem para a Europa Inicialmente eu iria fazer um curso de francês e depois mochilar por um período de 3 meses, logo após terminar meu doutorado. Porém, uma proposta de emprego em São Paulo, adiou meus planos em um ano, bem como reduziu consideravelmente a duração da viagem para apenas 20 dias.

A redução de 70 dias em meus planos não diminuiu minha vontade. Ao contrário, apenas aumentou o desejo e a persistência em planejar os mínimos detalhes, de forma que essa viagem fosse memorável, mesmo que fosse de tão pouca duração.

Escala em Zurich

A diversão começou desde o aeroporto. Na hora de embarcar deu aquele frio enorme na barriga. “Cruzar o Atlântico sozinha? Em que eu estava pensando?” Pensamentos que duram meio segundo, pois a vontade de ir é bem maior. O que durou mais tempo mesmo foi a despedida do noivo (hoje meu marido e pessoa que mais me apóia em meus sonhos de conhecer o mundo). Ficamos tanto tempo nos despedindo que quase perdi o avião. Brincadeira, mas que fui a última a entrar, isso foi verdade.

Diário de viagem

O avião decola e começo a escrever em meu diário de viagem, outro companheiro fiel, meu caderninho cuja capa é um Betty Boop glamourosa.

Enquanto o piloto fala alemão sem parar, provavelmente sobre o tempo de vôo, altitude, velocidade, etc etc, eu sem nada entender olho pela janela e vejo então uma lua cheia, dançando alegremente no céu negro.

Brilha tanto que parece querer entrar pela janela, como se desejasse me abraçar, dizer alguma coisa talvez.

Uma lua sorridente brincando no céu tão escuro. Uma dama curiosa que observa atenta e ilumina.

Eis ai um bom presságio.

A lua me acompanha, deixando de lado a solidão de viajar sozinha em meio a tantos suíços calados pensativos.

Viajar sozinha me faz lembrar o arcano  O Louco do tarot. Uma figura enigmática que inicia sua jornada sem mesmo perguntar o porquê de se fazer aquilo.

O Louco, Tarot de Marselha

A Jornada descrita no tarot, a jornada de um homem. Isso me faz pensar também no principal desafio do Louco. O Arcano é representado carregando uma sacola, e é ai que reside seu desafio, o nosso desafio.

No final da jornada, sua sacola pode retornar cheia ou vazia.

Relembrando que a vida é um ciclo (uma espiral, como diziam os celtas) que nunca termina, eu, assim como o Louco na jornada descrita pelo tarot, vou retornar ao início. E então como estará a minha sacola? Cheia? Vazia? Diferente? Modificada?

Esse é o desafio e a pergunta de quem faz uma viagem sozinha (ou mesmo acompanhada). O que deixar, o que levar, o que trocar, o que aprender e o que desaprender.

Enquanto me perco nesses pensamentos, percebo tardiamente que não vejo mais a lua em meio a escuridão celeste. Talvez ela durma agora, ou talvez tenha ido observar outros viajantes.

Quando o dia amanhece, o calado passageiro ao meu lado abre a janela e vejo a paisagem, montanhas a perder de vista. Uma imagem que transmite poder e paz. Meus pensamentos agora são “Europa!”. Ligo a TV à minha frente e confirmo, sim, são os Pirineus da Espanha. Não demora tanto agora, logo o avião pousa em Zurique.

Solidão? Sim, viajar sozinha pode ser solitário em alguns momentos. Nesses casos, uso tempo a meu favor, para escrever meu diário, observar as pessoas na rua, enquanto descanso em alguma praça, rever as fotos mais importantes e descrevê-las com cuidado em meu diário.

Viajar sozinha é uma forma de você perceber melhor seus sentimentos, observar melhor o ambiente ao redor, e também de valorizar mais as pessoas que estão ao seu lado e que, mesmo do outro lado do oceano, permanecem tão próximas, residentes fixas em seu coração.

E não é tão solitário assim, albergues são ótimos lugares para se fazer amizades e conhecer gente do mundo inteiro. Cada pessoa com seus planos, indo e vindo para lugares tão diferentes do seu próprio itinerário. Cada pessoa viajando por um motivo, e ao mesmo tempo todos viajando pelo mesmo motivo.

Eu e minha mochilassauro refletidas em Amsterdam

Outra vantagem é que você pode fazer seu próprio roteiro, algo impensável quando se viaja de excursão ou pacotes próprios. Já viajei assim quando era adolescente e inexperiente. Até perceber a chatice que é alguém te dizendo qual será o passeio do dia.

Viajando sozinha eu posso me perder em meus trajetos, se algo me chama mais a atenção do que o caminho previamente pensado.

Posso passar horas em um museu magnífico como o Altes Museum em Berlim ou descasar preguiçosamente no Jardim Du Luxembourg em Paris, vendo o dia passar lentamente enquanto ouço uma música ou como um queijo chèfre.

Viajar como mochileira é sentir liberdade, é ter aventura e muitas surpresas (mesmo que seja o trem mudando de plataforma no último minuto e isso ser anunciado somente em alemão).

Viajar sozinha é um aprendizado, uma experiência única, um crescimento pessoal intenso e prazeiroso.

Que delícia ser dono do seu tempo e da sua viagem!

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